O fim da linha.

Pois é, o grandioso estado social português deu nisto. Um pais de crescimento esclerótico, com uma criação de riqueza anémica e um voraz apetite para gastar aquilo que não têm, banhando os seus funcionários com aquilo que porventura merecem mas que nunca poderia dar e, mais grave, arruinando-se em negócios com privados . O resultado é um novo protectorado e, embora não seja grande “afficionado” do FMI, a entrega dos destinos macroeconómicos do pais a mãos, por que não dizê-lo, mais capazes ou, de outro ponto de vista, pouco preocupadas com populismos fáceis e charlatões.

O pagamento dos salários já estava em risco (e ainda está ao que parece sobretudo nas empresas de transportes públicos e no MAI), uma surpresa com certeza para alguns que ainda acreditavam que o governo poderia dar “a volta” à situação difícil em que nos encontrávamos. Mas não, tal já não era possível, os erros deste e de anteriores governos acumularam-se fragilizando Portugal até a um ponto que seriamos sempre os mais penalizados por qualquer abalo económico internacional. Penalizados pela nossa incapacidade estrutural de crescer e produzir, penalizados pela nossa dependência do gasto governamental, corrupto, ineficaz e muito pouco transparente. Basta ver a vergonha das parcerias publico-privadas na área dos transportes (entre outras igualmente criminosas). A coberto da integração do território permitiu-se a construção infindável de autoestradas para lado nenhum, esperando miraculosamente que a abertura de uma via de 4 faixas fosse trazer o desenvolvimento económico a uma qualquer área que por si só não teria interesse nenhum.

Aqueles que procuram inimigos externos a quem se possam atribuir culpas, desenganem-se, a culpa é nossa e só nossa. Poderemos com certeza apontar várias externalidades que agravaram a nossa situação, mas esta já era grave em tempos bons quanto mais seria então em tempos menos bons.

O estado tem que se reconfigurar e reorganizar. Por mais que as pessoas não o queiram não podemos continuar a afundar o pais à custa de BPNs, PPPs ruinosas, empresas publicas corruptas e insolventes,  gastos com o pessoal, com carros, com assessores, consultorias, planos, estudos, renovações de estações ferroviárias e gabinetes, viagens, institutos e fundações. Se queremos gozar da mesma amplitude que os nossos “vizinhos” do norte europeu temos de fazer por isso, temos de nos tornar um modelo de eficácia, transparência, justiça, liberdade económica e criação de riqueza só desta forma poderemos garantir os serviços que hoje reivindicamos ao estado mas que este se encontra, cada vez mais, incapaz de fornecer. Portugal tem de passar a ser o país onde as coisas acontecem, onde as coisas são feitas, não pode continuar a ser o pais dos projectos pendurados para sempre, do debate infindável, do aeroporto que era mesmo para ser ali, mas que afinal de contas fica mesmo bem do outro lado do rio (a lista poderia continuar certamente).

Como é que se faz isto? Chega-se a São Bento, corta-se as relações com os “amigos”, fecha-se as portas, desliga-se o telefone e faz-se o que se tem de fazer doa a quem doer. O FMI pode tentar melhorar as contas, mas não muda a mentalidade.


Disponibilidade e necessidade.

““Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI”, afirmou Sócrates, que falava na apresentação da moção de recandidatura como secretário-geral do Partido Socialista (PS), no Porto.”

Sócrates afirma, com a convicção que o caracteriza, que não está disponível para negociar com o FMI. Pois bem, a taxa de juro que o FMI pede tanto à Grécia como à Irlanda ronda os 5,5% enquanto que portugal ronda entre os 5% a longo prazo e 7% a curto/médio prazo. Esta taxa de juro é algo que vários economistas, entre os quais o “socialista” Paul Krugman apelidaram de ruinosa “se se pensar sobre a dinâmica da dívida, uma taxa de juro tão alta é pouco menos que ruinosa, “se se pensar sobre a dinâmica da dívida, uma taxa de juro tão alta é pouco menos que ruinosa”. Adianta, porém, que “não é, de facto, tão má como as pessoas estavam à espera na semana passada, daí o sucesso”. Mas alerta: “Mais alguns sucessos e a periferia europeia será destruída.”

Sócrates esquece, como tem hábito por conveniência, que, neste momento, só o Banco Central Europeu nos impede de cair numa catástrofe de falta de liquidez para pagar salários (alguns deles que até era bom não serem pagos). Esquecendo as questões pragmáticas este primeiro ministro aposta num sentido perverso de patriotismo onde o que é de salutar não é salvar o país mas sim impedir que sejamos “governados” financeiramente por uma cambada de estrangeiros. Infelizmente Sócrates estará porventura esquecido da máfia que invadiu o sector estado, às costas de muitos bem intencionados e que pouco a pouco tem vindo a deitar este país na mais profunda crise, crise essa que no primeiro momento de fraqueza internacional pôs a céu aberto todos os falhanços e fraquezas da nossa governação desde 1974 (há quem diga desde à muito, muito mais).

Entre Sócrates e o FMI venha o diabo e escolha.

http://publico.pt/1485720 – Sócrates e FMI

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=462777 – Krugman e taxas de juro


Certificados do Tesouro com juro de 7,1 por cento

A isto, meus caros, denomina-se juros ruinosos. No fim se verá quem tinha razão, se a irlanda e a grécia, se portugal.

in Público, 25.02.2011 – 09:25 Por Rosa Soares

http://publico.pt/1482080